DA PLANTAÇÃO À COLHEITA – A TERRA QUE CUIDA É FEMEA, mas quem lucra com isso?

Junho chega quente, apesar de seu clima úmido e frio por natureza. Mês de festejos juninos, mês de se ter orgulho de suas identidades de gênero e sexualidade, que comemoramos no dia 28 o orgulho Lgbtqiap+, mês de boas colheitas, e até de se pedir um amor ao Santo Casamenteiro. O mês de junho é esperado pela força agrícola na colheita dos alimentos que aquecem a economia de toda Bahia e, principalmente, para os municípios que realizam os festejos juninos e que neles vêm a possibilidade de aquecerem os bolsos, sobretudo após dois anos de perdas e defasagem na economia, uma vez que a força da pandemia da Covid 19 nos obrigou a parar tudo.

Apesar da tradição incutida nesse mês, que traz alegria para o povo baiano, infelizmente o mês de junho também foi marcado por diversos tipos de violências e discussões sobre a vida das mulheres e de crianças. Talvez tocar nesse assunto, num texto que começa indicando alegria e fartura, não seja tão aperitivo, mas posso assegurar que é necessário.

Em toda Bahia, e quiçá em todo Brasil, a presença das mulheres na zona rural supera o número dos homens, tanto nos trabalhos em suas terras como em trabalhos em fazendas e sítios onde prestam serviços. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de mulheres na condução de propriedades rurais aumentou 38% em todo País, entre 2006 e 2017. Contudo, apesar desse avanço, elas ainda são minoria entre os proprietários: no Brasil, 19% dos estabelecimentos rurais têm mulheres como proprietárias, e em São Paulo essa proporção é de 13%.” Esses números nos fazem questionar os porquês de tamanha disparidade, uma vez que a economia gerada por mulheres sobrepõe a dos homens. Essa é a crua e infeliz realidade, a distopia social a qual as mulheres estão submetidas, e em especial as mulheres negras e indígenas.

No calor da economia junina, também chegam os números absurdos das violências que muitas mulheres foram submetidas de janeiro a maio desse ano, com base nos dados do “site do G1 Bahia”. E esses números crescem se trouxermos os dados de violências entre as mulheres transgênero, lésbicas e bissexuais da comunidade LGBTQIAP+. Nesse mesmo mês, tivemos casos absurdos de estupros contra mulheres e contra crianças, e em especial o caso da menina de apenas 10 anos de idade que,em meio a tanta dor, foi submetida a vexames e humilhações por parte daqueles e daquelas que deveriam promover o bem estar desta criança, e também de sua mãe. Esse caso, que não é isolado, nos mostra como o “poder” está sendo aplicado na sociedade e para quem de fato, ele opera. Em um mês marcado pela fartura alimentar e expectativas econômicas, foi também pautado porreflexões e discussões acerca do caminho que o Brasil e sua sociedade continua seguindo, pelo menos para as pessoas que têm ao menos um pouco de empatia e sensibilidade humana, que não traz em seus comportamentos as reproduções de uma era perversa do que foi a cultura do poder da colonialidade patriarcal, machista e misógina.

Embora apresentar esses fatos nos remeta a lugares desconfortáveis, não podemos deixar de discutir a forma cultural e perversa em que os homens secularmente anulam o protagonismo das mulheres, e indo além, não é natural deixar de reivindicar os direitos “políticos” que nos cabe. Essa forma pontual é apenas um bálsamo diante da expectativa epistemológica para o reconhecimento da participação feminina em toda esfera social. Portanto, as observações e espelhamentos são pertinentes e evidenciama negativa do gênero em questão.

Retornando ao início dessa prosa, quero poder trazer os sabores e a frescuras aos quais estão envoltos o mês que me debrucei nessa escrita. Quero poder me fartar não apenas das iguarias juninas, mas também quero me ver nas apresentações onde a “quadrilha” veste os coloridos vestidos de rodas fartas nas danças ao som da sanfona, mas que durante o bailado, os fogos não nos firam por coincidência. Queremos poder plantar, colher, vender, e sobrar outras tradições, onde o santo não seja apenas casamenteiro, que ele seja protetor e indicador de possibilidades e igualdade democráticas. Que possamos saborear a colheita, mas que também possamos ser donas das terras, da venda e dos lucros. Que nossas tradições sejam anunciadas em outras culturas de vida e bem viver. Que nossas crianças possam brincar à beira das labaredas das tradicionais fogueiras, mas que elas não virem cinzas de lágrimas e dor. Que os santos as protejam, inclusive do casamento que não desejou, que elas continuem crianças até o findar da sua natureza e que, portanto, dela não seja gerado, um lugar de obrigação e dor.

Por Janda Mawusí

MULHERES, FILIEM-SE AO PSB!